Histórias de Moradores de Barretos

Esta página em parceria com o Museu da Pessoa é dedicada a compartilhar o acervo de vídeos e histórias com depoimentos dos moradores.

História da Moradora: Maria Jovita Braga Ocon
Local: São Paulo
Ano: 27/07/2005





Uma pioneira do bordado à máquina em Ibitinga

História:

P/1 - Bom, então vou pedir para a senhora repetir o seu nome.

R - Maria Jovita Braga Ocon.

P/1 - E a senhora estava falando ... o nome dos seus pais.

R - Ângelo Calvi e Maria Antonia Braga.

P/1 - E a senhora estava falando, antes de começar a entrevista, do seu pai que... quem é que veio?

R - Os meus avós, o pai do meu pai e o pai da minha mãe. O pai da minha mãe era português e o pai do meu pai era italiano. Italiano mesmo.

P/1 - É? E porque eles vieram?

R - Eles vieram naquele tempo do café, vieram naqueles navios... que mandava buscar aquela italianada pra trabalhar no Brasil, trabalhar com o café. Aí, chegando no Brasil o meu avô... eles foram pra lavoura, era o meu avô, a minha avó e dois filhos, um tio e uma tia. E ele achou que estava trabalhando feito escravo, resolveu ir para o Paraguai. E lá no Paraguai, o meu avô pôs um hotel, um restaurante... é, um hotel. Então eles trabalhavam com hotel, nesse hotel, no Paraguai, nasceu meu pai. Aí, depois o meu avô vendeu o hotel e veio para o Brasil, mas o meu pai já estava mocinho, já tinha estudado no Paraguai.

Foi depois da Guerra do Paraguai... do Brasil com o Paraguai, que eles vieram para o Brasil. Aquela guerra toda, passaram por lá. Então, houve a Guerra do Brasil com o Paraguai, acho que é em mil oitocentos e tanto. Aí vieram pra cá, vieram pra Mato Grosso, em Mato Grosso do Sul e o meu avô foi morar numa aldeia. E ali eles começaram a colonizar ali, a plantar naquela aldeia. Eu já era mocinha, eu já tinha estudado um pouco lá no Paraguai, e o meu avô pôs uma escola para os índios lá, que ainda existe até hoje esta escola, e uma igrejinha, uma capelinha construída pelo meu avô.

P/1 - Que cidade é?

R - Aquidauana. É na aldeia de... puxa, meu Deus. Limão Verde. Aí, nesse lugar, em Aquidauana, meu pai conheceu minha mãe. Aí eles se gostaram e se casaram depois.

P/1 - Tá jóia.

R - E desse casamento surgiu... ela tinha 12 filhos.

P/1 - A senhora é que número?

R - Eu era o número cinco, é. Um, dois, três... seis.

P/1 - Seis? E quantos homens e quantas mulheres?

R - Seis mulheres e seis homens.

P/1 - Ah, é?

R - Ainda tenho vivo dois homens e quatro mulheres.

P/1 - Dona Maria Jovita, por que eles escolheram Mato Grosso pra ir?

R - Eu não sei, esse pedaço eu não sei. Eu sei que eles passaram muito trabalho, o meu pai pôs olaria, fazia tijolos, né? E eu nasci nessa aldeia no Limão Verde, numa aldeia de índio.

P/2 - E a senhora teve contato com os índios, tinha bastante índio lá?

R - Ah, eu não me lembro mais. Quando eu era bem pequena, então eu não me lembro, porque saí de lá pequenininha, não lembro desse contato com os índios, mas depois de grande, aí eu entrei em contato com eles, né?

P/1 – Como se chamava a aldeia aonde a senhora nasceu?

R - Limão Verde. Aquidauana, Mato Grosso do Sul.

P/1 - Foi então o seu pai que construiu a primeira...

R - A primeira igrejinha... ainda existe a capelinha lá.

P/1 – Como se chama a igreja?

R - Não lembro, não sei, não sei nem que nome, nem que santo tem. Eu vou muito pouco ao Mato Grosso.

P/1 - É muito longe, né?

R - É, não é que é tão longe, né? É que... às vezes não dá certo. Esses dias eu fui, que perdi um irmão, morreu um dos meus irmãos, um dos mais novos, caçula, aí eu fui.

P/1 - Que dia a senhora nasceu?

R - Eu nasci em 14 de Fevereiro de 1921.

P/1 - E o que a senhora lembra da sua casa, com os 12 irmãos, quando vocês eram crianças?

R - Aí eu me lembro... minha infância foi meio acidentada. Como minha mãe tinha muitos filhos ela me deixou com uma tia. E eu conheci... como eu era pequeninha eu conheci a minha tia como minha mãe. Então a minha tia era minha mãe. Ela não tinha nenhum filho e tinha ela e o marido, né? E eu era a filhinha querida, fui criada muito mimadinha, assim...

P/2 - A senhora?

R - É. E eu sempre falava pra minha tia: "Ah, mãe, eu queria ter bastante irmão. Ah, é tão triste ser sozinha! Como eu gostaria de ter irmão!" Mas a minha tia também trabalhava com dificuldade, era pobre, a gente... e eu fui muito pouco na escola, eu estudei muito pouco porque sempre morava longe e era difícil. Eu fiz até o segundo ano de Grupo. Não deu pra estudar mais, assim eu fiz com dificuldade mas aprendi a ler. Todos os meus irmãos também aprenderam a ler um pouco em casa e um pouco na escola. Ninguém mais do que o segundo e o terceiro ano primário.

P/1 - Vocês moravam numa fazenda?

R - É, esses aí são... É, não sei... Aí o meu pai tinha uma chácara, comprou uma chácara para criar a filharada lá.

P/2 - Pra pôr todo mundo lá?

R - Todo mundo. Essa chácara era pertinho de Aquidauana, perto de Anastácio e nessa chácara tinha a filharada ali. Os mais velhos foram saindo, né? Os três mais velhos... quatro, a minha irmã mais velha casou-se, aí ficou os menor. Mas o meu pai morreu muito cedo. Ele trabalhava numa marcenaria e nessa marcenaria ele foi acidentado. E a minha mãe ficou com toda essa filharada, tirando os quatro mais velhos e mais o que já tinha casado... não, os dois mais velhos, né? Três mais velhos, a minha irmã que já tinha casado e os outros dois. Daí pra baixo, era de 15 anos pra baixo, de um ano a 15.

P/1 - E como sua mãe fez?

R - Foi lutando naquela chacrinha com dificuldade. Ih, criou todo mundo, sabe? E nessa chácara, aí apareceu meu príncipe encantado.

P/2 - Isso a senhora então já morava... foi morar com a sua tia... aí a senhora contou...

R - Esse trecho eu fui morar com a minha tia, mas quando eu tinha 12 anos a minha tia faleceu. Ela faleceu e eu não sabia que ela era a minha tia. Aí o meu tio falou assim: "Olha, eu perdi você... sua mãe e você." Eu falei: "Por que?" "Porque você não é minha filha." Isso aí foi um baque tremendo, né? Aí o sofrimento foi grande, né? Ele falou: "Mas você tem seu pai, fulano é seu pai, o Ângelo é seu pai." Aí, no mesmo dia eu já fui para a casa dos meus pais.

P/2 - E ganhou um monte de irmãos.

R - Ganhei um monte de irmão. E foi difícil adaptar nesse monte de irmão. E também só vivi um ano em companhia do meu pai, porque o meu pai foi acidentado. Minha vida foi acidentada.

P/2 - E o tio ficou?

R - E o tio ficou, mas eu fiquei com a minha mãe, né? E depois, logo em seguida comecei a namorar e casei.

P/1 - Com o príncipe encantado?

R - Com o príncipe encantado.

P/1 - Como a senhora conheceu ele?

R - Ih, minha filha!

P/2 - Porque foi novinha que a senhora casou, nessa época!

R - Nessa chácara a gente não tinha dinheiro, era muito difícil, a roupa...

P/2 - Era um príncipe mesmo, um príncipe encantado.

R - É, era um príncipe mesmo. E eu estava... a gente limpava o arroz no pilão, socando arroz no pilão. Então eu estava limpando arroz no pilão, aí chegou esse moço, me cumprimentou, eu dei uma olhada e já senti qualquer coisa, né? Aí ele falou: "Quer ajuda?" E eu estava com um vestidinho preto, ainda estava de luto do meu pai, um vestidinho preto, muito mal arrumada, cabelo esparramado, né? "Quer ajuda" Eu falei: "Não é ruim, né?" Aí começou. Aí começamos a nos entender. Ele trabalhava numa charqueada...

P/2 – O que é isso?

R - Como se chama em Mato Grosso charqueada é tipo um frigorífico.

P/1 - Ah, fazia o charque!

R – Fazia o charque pra mandar pra fora. Era uma charqueada grande, do senhor Laudelino Barcelo, era, aquele tempo que ele trabalhava. Então aí começou a minha vida de casada.

P/2 – Quantos anos a senhora tinha mesmo?

R – Eu tinha 15 quando casei. E quando ganhei meu primeiro filho eu já tinha 17. Foi dois anos, um ano e pouco depois, né? Quase dois anos. Aí nasceram... do meu primeiro filho, quando ele tinha 40 dias nós fizemos uma viagem para Juiz de Fora.

P/1 – Nossa, tão longe!

R - Eu não conhecia cidade nenhuma! Eu era um bichinho, assim, tinha medo de falar, tinha medo de me expressar, tinha medo de falar errado... Aí fizemos essa viagem pra Juiz de Fora. Ele tinha 40 dias, o nenen. Nós fomos de trem, de cabine... naquela época os trens eram lindos, viu?

P/1 – Como era?

R – Ia pra Mato Grosso, ia até Porto Esperança esse trem. Saía daqui de... não lembro. Não era Estação da Luz, a outra, como é que chama? A outra estação.

R/2 - A antiga de São Paulo?

R – É.

R/2 – É a Noroeste, não é?

P/1 – Do Largo do Pari?

R – Não. Tem a Estação da Luz e a Sorocabana.

P/1 – Ah, Sorocabana. A Júlio Prestes.

R – Júlio Prestes, é. É Júlio Prestes, né? Então aí viemos de carro leito, tudo, porque ele trabalhava lá, ele ganhava muito bem, o ordenado dele era bom. Então a gente tinha uma vida pobre, sem luxo...

R/2 - Veio de mudança pra Juiz de Fora.

R – Veio de mudança pra Juiz de Fora, não foi a passeio.

P/2 – A senhora mudou?

R – Ele veio de mudança. O meu marido era uruguaio, era desse homens meio estouradão. Ele era 24 anos mais velhos do que eu.

P/1 – Como ele se chamava?

R – Gilberto. Pega uma fotografia lá pra elas...

R/2 – Eu tenho aquela que a senhora me deu aqui.

R – E tem as outras ali, da família.

P/2 – É, deixa eu pegar aquela ali da família.

R – Então o meu filho mais velho chama-se Nei. E fomos pra Juiz de Fora, ele foi trabalhar também numa charqueada ,mas ficamos pouco tempo ali.

P/2 – Então a senhora mudou, foi de mudança de trem para Juiz...

R – Foi de mudança, sem conhecer nada.

P/2 – Levou tudo as coisas no trem...

R – Não, levamos as roupas do corpo. Pra comprar tudo lá porque lá também a gente não tinha... nossas coisas não eram assim não, era coisa assim de... era uma cama, um guarda-roupinha, uma coisa assim simples, tudo pobre. Aí ficamos uns três meses em Juiz de Fora. Ele arreliou lá com o... não se entendeu com o patrão e viemos embora pra São Paulo. Em São Paulo, ficamos mais um mês e pouco em São Paulo, dois meses, aí voltamos pra Mato Grosso.

P/2 – Na cidade de São Paulo, vocês ficaram?

R – É. E essa viagem foi ainda uma viagem que pra mim foi muito beneficente porque eu conheci alguma coisa na minha vida. Aqueles tempos você viajava de trem, aqueles cafezais que sumia de vista...Assim, que você olhava, olhava, a coisa mais linda, mais linda, mais linda, viu? Perdia de vista! Passando por Lins, Araçatuba,... todas essas cidades ai. É lindo!

P/1 – Pirajuí...

P/2 – Com rio... tinha muito rio...

R – Tinha muito rio, muita coisa.

P/1 – Ah, tem?

R/2 – Tem do casamento dela.

R – É, tinha 15 anos.

P/1 – Nossa, que foto linda!

R – Ele era bonitão, né?

P/1 – Ele era. Galã de novela, príncipe mesmo.

P/2 – Nossa, maravilhoso!

R – E você vê, hoje em dia essas moças que... E outra coisa, a gente não tinha água encanada, não tinha fogão a gás, não tinha nada disso. Era água de poço, puxada em poço...

R/2 – Aonde a senhora tem, mãe, os outros álbuns?

R – Esses quadros que estão aí têm, Neuda. Eu acho que tem um na gaveta, que quebrou. Então não tinha nada disso. Mesmo em Juiz de Fora, nós fomos morar numa casinha... porque em Mato Grosso, a casa que eu morei, a primeira casa minha, era um ranchinho de sapé. Igualzinha de índio, um ranchinho de sapé coberto de capim, um cômodo só e um puxadinho que era a cozinha. A cozinha era um fogão de barro...

P/1 – De barro mesmo?

R – De barro mesmo, com lenha. E estava bom.

P/1 – E esse cômodo era sala, era quarto, era tudo?

R – Esse cômodo era sala, era quarto... não, a sala era debaixo da árvore. (risos)

R – Os arvoredos lá de... os pés de jatobá... tinha o pé de jatobá muito perto que era... que o quarto era pra dormir.

P/2 – Tinha rede?

R – Tinha rede. A gente dormia em rede, sabe?

P/1 – Dormia em rede?

R – Não, no quarto era na cama, mas fora era em rede. Tinha pé de jatobá, a gente dormia lá. Era romântico!

R – Então, eu fico pensando, hoje em dia essas meninas casam... E pra mim aquilo estava tudo bom, eu não estava nem aí, eu não pensava...

P/1 – Era muito diferente, né?

R – Eu não pensava que ia passar fome, que não ia dar certo, por enquanto tinha tudo pra mim, né? Eu admiro essas meninas hoje que casam com tudo, com tudo, têm tudo o que existe de mais moderno... aperta um botão a água tá ali, aperta um botão tá tudo ali, aperta um botão a água tá caindo... Eu tinha que lavar roupa no rio. Apanhava uma bacia de roupa e ia no rio lavar roupa.

P/2 – Qual rio tinha lá perto? A senhora lembra o nome?

R – Vai chegar lá. Então, nós ficamos em São Paulo, aí voltamos para o Mato Grosso. Aí eu chorava. Eu queria a minha terra, não queria mais saber daquela cidade grande, eu tinha pavor daquela cidade grande, pra mim aquilo era um horror, eu queria voltar mesmo era pra minha terra.

P/1 – Pra Aquidauana?

R – Pra Aquidauna, no meu lugar de ranchinho, na minha vidinha, assim, de pé no chão...

P/1 – O que mais a senhora estranhou em São Paulo nesse tempo?

R – Estranhei tudo. Fiquei doente, meu filho ficou doente... estranhei tudo em São Paulo, tudo, tudo. Era uma vida completamente como de um outro mundo pra mim. Saí de um mundo para um outro mundo. Achava tudo bonito, claro! Achava bonito, a gente ia passear... aquele tempo em São Paulo a gente podia passear, podia passear na Praça da Sé, aquele tempo tinha aqueles lagos... não é do seu tempo, você nunca nem viu isso aí, aqueles leão botando água pelo nariz, aquelas coisas todas lindas, a Praça do Correio, aquilo tudo você podia andar... ali aqueles jardins, aquelas árvores, era a coisa mais linda! Você podia andar tranqüila, até dormir ali. Como hoje em dia a gente não pode mais, porque tudo aquilo já acabou. Na Estação da Luz, ali na Praça da Luz você podia dormir nos bancos, você sentava ali e podia dormir nos bancos, aquela Praça da Luz. Era coisa maravilhosa! Hoje em dia é tudo fechado, aquelas cercas enormes e você não tem acesso em nada ali. Acabou tudo aquilo ali, acabou tudo, né?

P/1 – Dona Maria Jovita, como é que era o trem quando viajou de Aquidauana pra Juiz de Fora... tudo foi feito de trem essa viagem?

R – Tudo foi feito de trem.

P/1 – Descreve o que tinha no interior do trem.

R – Ah, o trem era lindo! Bom, a gente tem que pensar que eu não conhecia outra coisa mais linda, mas era mesmo, porque depois disso eu viajei muito e muito e muito de trem. Viajei muito. Essa viagem foi a primeira viagem da minha vida. A primeira viagem da minha vida foi aquela viagem que eu saí do Mato Grosso e fui parar em Juiz de Fora. É, fiz uma baldeação em Barra Mansa, que é Rio de Janeiro...

P/1 – Foi até o Rio de Janeiro pra depois ir pra Juiz de Fora?

R – É, de Rio de Janeiro a Juiz de Fora.

P/2 – Horas e horas... dias...

R – Horas e horas.

P/2 – Chegou a ser dois dias?

R – É, dois dias.

P/1 – E como era o trem?

R – O trem... tinha carro de segunda, era banco de madeira, mas bem envernizado... naquele tempo podia dizer que não era tão velho, né? Tudo envernizadinho. Os carros de primeira era assim, com estofados, bem arrumado, com capa branca, capa de pano... tudo bem arrumado! O restaurante, as mesinhas bem arrumadas, com flores, bem arrumado mesmo. Tinha os carros leito, as cortinas...

P/1 – A senhora foi de leito?

R – Fomos de leito, porque...

P/2 – Com o nenen, né?

P/1 – Era um compartimento... como se fosse um quarto?

R – Era, o leito é assim, é um corredor, então tem a cabine e tem os carros- leito, né? Só... assim, com cortina o leito. Nós pegamos a cabine. Na cabine tem duas camas, uma embaixo e uma em cima, é uma beliche. Ali tem lavatório, ali tem... tem tudo ali dentro.

P/2 – A janela...

R – Tem tudo.

P/2 – Dá pra ir deitado na cama olhando pela janela? Dava?

R – Dava, dava pra ir deitado.

P/1 – E o nenen, ficava com a senhora direto?

R – Direto. Então, aí voltamos. Voltamos, ele foi trabalhar novamente na mesma firma de charqueada e daí arrumamos nosso ranchinho de novo, mas precisamos comprar tudo de novo, porque lá vendeu tudo que tinha, em Juiz de Fora. Em São Paulo compramos de novo, vendeu de novo, aí lá em Mato Grosso compramos outra vez. Aí nós fomos morar num ranchinho na beira de um rio, do Rio Aquidauana, bem no barranco, bem no barranquinho. E naquele rio eu ia lavar roupa, descia aqueles barrancos e ia lavar roupa ali. Mas ali a gente não tinha mais nada, ele conseguiu comprar uma cama porque já estava sem dinheiro, sem nada, né? Começou a trabalhar tudo de novo, a refazer novamente, né? Foi nesse meio tempo eu já fiquei... Não, trabalhou mais uma safra só, só uma safra que ele fez lá. Você entende o que é uma safra?

P/1 – Não.

R – Uma safra é... como eu vou explicar? A safra é assim, tem o tempo das matanças que mata, por exemplo, são seis meses, sete meses...

P/2 – Pra matar boi?

R – Pra matar boi e fazer o charque. Então essa é uma safra, depois tem uma parada. É como o café, o café tem uma safra...

P/1 – Ah, tá.

R – Depois pára, né? Aí ele falou: “Eu não vou ficar aqui no Brasil.” Ele falou assim: “Esse Getúlio Vargas era político, era muito político, Nossa Senhora! Olha, governo pra ele...” Ele falava em espanhol, castelhano: “Si tiene gobierno, yo soy contra.”

P/1 – Ele falava isso?

P/2 – E ele não gostava então do Getúlio Vargas?

R – Não. O Getúlio Vargas? Pra ele o Getúlio... e pra mim o Getúlio Vargas era o rei porque eu aprendi a gostar do Getúlio Vargas na escola, o Getúlio Vargas fez muita... Eu sou getulista, heim? Getúlio Vargas fez muita coisa pra Mato Grosso! O que Getúlio fez... porque quando eu era pequena em Mato Grosso, a gente saía comprar pão tinha um defunto na frente do bar, por aí. Como matava gente! Os fazendeiros, aqueles coronéis... naqueles tempos eram coronéis, então aqueles coronéis ajustavam os peão, trabalhava e depois mandava... trabalhava por um ano, pagava só no fim do ano. Durante o tempo que eles trabalhavam eles pagavam direitinho. Quando mandava pagar, mandava embora, mandava um jagunço tomar todo o dinheiro deles, ou senão matava tudo.

P/2 – Os índios também deviam...

R – Os índios não faziam nada pra ninguém.

P/2 – E eles matavam?

R – Os índios não, os índios eram amigos da gente, principalmente aqueles de lá, os terenas, né? Amigos da gente, gente boa, gente simples. É uns coitados aqueles lá.

P/2 – Mas os coronéis mandavam matar os índios também, e coisa assim?

R – Não, os índios não. Os índios ninguém mexia com eles ali, principalmente aqueles que eu já conheci. O índio não trabalha, não adianta mandar trabalhar, ele não trabalha, ele não gosta de trabalhar. Ele planta um cantinho de mandioca... O meu avô até que sabia lidar com eles, sabe? Porque meu avô dava um dinheirinho pra eles, eles carpiam uma mandioca para o meu avô, o meu avô trazia comida pra eles, eles se entendiam, viu? E é assim que eles vivem. Eles vendendo frutas, vendendo aquelas coisas nativas, né? Mas os índios não gostam muito de trabalhar não, até hoje!

P/1 – É só para o sustento, né?

R – Só para o sustento. Os índios viviam mais de caça, essas coisas, né? Ali também eles não eram... já eram civilizados. Já não eram... aqueles que moravam ali. Existe até hoje, está lá. Está lá a aldeia até hoje...

P/1 – Tem uma reserva indígena ali?

R – Tem uma reserva, estão lá até hoje, moram lá.

P/1 – Estão. Tem os terena...

R – A última vez que eu fui lá... ele lembra do meu avô.

P/1 – Ah, é?

R – O meu avô chamava João. Ele falava assim: “Ah, o Dom João...”

P/1 – O capitão... tem o capitão.

R – Não, não tem capitão. Índio não...

P/1 – Então acho que é outro.

R – É cacique.

P/2 – Terena é cacique.

R – É cacique.

P/2 – E o avô é por parte de pai?

R – Esse meu avô é por parte de pai, os italianos, né? O meu avô era muito querido lá. Aonde eu estava chegando? Eu estava saindo já. Aí, nessas alturas, o meu marido fez mais uma safra, pegou o dinheiro e falou: “Eu vou mudar para o Paraguai. Vamos embora para o Paraguai.” Eu falei: “ Homem do céu, o que é que nós vamos fazer no Paraguai?” Ah, ele queria ir, pra mim, vamos embora, né? Eu tinha só um filho, estava com 17 para 18 anos já, né? Aí nós fomos. Mato Grosso tem uma divisa do Brasil com o Paraguai, chama Bela Vista. É Brasil com Paraguai. Aí nós fomos até Bela Vista, levamos nossa mudancinha: cama, colchão, essas coisas todas. Aí passamos para o Paraguai, não tinha transporte pra lá, nada. Pra pegar um caminhão pra levar mudança era muito caro, nós pegamos uma carreta de boi.

P/1 – É mesmo?

R – Ai, foi lindo essa carreta!

P/1 – Fazia aquele barulho com a roda de boi?

R – Carreta de boi, nós pegamos uma carreta de boi em Bela Vista. Em Bela Vista do Brasil os soldados eram bem vestidos, aqueles fuzil... Em Bela Vista do Paraguai os soldados tudo de chiripá. E até hoje.

P/2 – Eu conheço, eu morava em Presidente Prudente, que é ali também, do lado.

R – Não...

P/2 – Não do Paraguai, do Mato Grosso. Eu fui várias vezes para o Paraguai, é pertinho.

R – Bela Vista?

P/1 – Não Bela Vista... é por ali perto.

R – Se você foi perto do Paraguai você foi em Dourados, que Dourados ali é outro... ali é Ponta Porã, que atravessa na rua. Lá em Bela Vista atravessa o rio, lá é o rio que atravessa.

P/2 – E atravessa o rio de balsa?

R - Não, atravessamos de canoa. Era canoa. Era canoa. Sabe canoa, pau furado. De remo, também é de remo.

P/2 – E as mudanças? Botava em cima as mudanças?

R – Ah, não sei de que jeito ele atravessou os colchões, aquelas coisas... e uma mala, uma mala grande que eu tenho essa mala até hoje.

P/1 – É mesmo?

R – É, tá com a minha filha lá em Tupã. Aí pega uma carreta, mas a carreta já estava lotada, sabe? Estava levando uma mudança, e coube a nossa, que era só colchão e cama, essas coisas, e a mala, né? Sobrava um pedacinho assim na frente, que ia o homem, o guia dos bois lá, sei lá como é que chama, o carreteiro lá, e ia assim pra mim, pra eu levar o filho no colo, que o meu filho estava com um ano e meio, nenezinho... um ano e seis meses ele estava.

P/2 – E ele era bonzinho? Ele ia quietinho?

R – Quietinho!

P/2 – Ah, que bom!

R – Era uma beleza, sabe? Mas... e o alimento pra essa criança, minha filha do céu? Que dificuldade!

P/1 – O que é que fazia?

R – O leite... sabe o que... porque ia três condutor da carreta, boiadeiro lá... um era paraguaio, outro era meio preto... gente assim desse tipo. E nós atravessamos esse sertão do Paraguai. Dez dias de viagem de Bela Vista à Vila Concepción del Paraguay. Dez dias de carreta. A comida era feita... você não conhece, você nem sabe o que é isso. Em cima dos cavalos vai os arreios, vai primeiro o forro, vai os arreios, depois vai uma... chama carona, é um couro duro que eles colocam. Em cima daquele couro duro eles picavam a carne, assim, sem lavar sem nada, a carne seca, jogavam na panela, misturavam, cortavam a mandioca suja, sem água sem nada e punha lá pra cozinhar e misturava o arroz. Aquelas comidas deles lá. Olha, eu passava a bolacha, umas torradas, umas bolachas que a gente comprava, que eles comem bastante, e leite. Eu comprava o leite... parava nas fazendas e pegava o leite e queijo.

P/1 – Pegava o leite? In natura?

R – É. Aí eles inventavam que ali nesses lugar... esses peão eles inventava que ali, aquele leite eles tirava, às vezes caía um dedo, às vezes caía pedaço de pele, que eram todos leprosos que moravam perto. Ai meu Deus do céu! Eu chorava, eu chorava a viagem inteira de medo de dar aquele leite para o meu filho: “Como é que eu vou dar esse leite pra essa criança?” Foi difícil. Aí... porque ainda não existia esse negócio daqueles leite em pó, aquelas coisas pra gente... não existia isso aí. Aí eu pegava o leite, fervia bem fervido, tinha as panelinhas que eu levava, punha no fogo, fervia, fervia, fervia bem... e tinha que ferver bem, porque o calor que fazia... a data era dezembro, um calor de 45 graus!

P/1 – Nossa Senhora!

R – Quando a gente chegava numa sombra às vezes não tinha água. Viajamos um dia inteiro sem água pra tomar.

P/2 – E pra ir ao banheiro, tomar banho, essas coisas, não tomava? Não tomava banho?

R – Banheiro? Era no mato, né? E os carrapatos? E os bichos, os mosquitos? Mas essa história é muito comprida. Essa história vai três dias.

P/2 – Mas pode ir.

P/1 – A gente tá adorando.

P/2 – A gente quer saber. É linda essa história. Difícil, muito difícil!

R – Não, mas isso aí é pra mostrar pra juventude que hoje em dia casa com tudo que é coisa...

P/1 – E ainda reclama, né?

P/2 – Ainda fica reclamando!

R – Então a gente levava... eu estava contando do leite. Fervia bem, depois punha num litro, numa garrafa, fechava bem, ainda eu arrumava um pouco de água, punha dentro de uma vasilha com água e ia balançando em baixo da carreta, ma o leite não estragava, né? Então eu fazia a minha comida. Fazia um arroz, fazia um arroz com carne...

P/2 – E era tudo aquelas carnes secas?

R – É, carne seca, só que quando eu fazia, eu fazia bem feita. A gente parava umas duas horas pra descansar e eu fazia comida bem feita: mandioca, carne, queijo... Bom, a cama, à noite era uma cama assim de rede debaixo da carreta. Eles davam a preferência, é claro, pra família. Os outros armavam a rede por baixo das árvores. E punha ali debaixo da carreta a rede, fechava tudo em volta com o lençol e punha um mosquiteiro, que o mosquiteiro era um mosquiteiro fechado, de tecido, que é algodaozinho, eu tinha um mosquiteiro, lá se usava, em Mato Grosso, a gente enfia na rede. Então eu dormia com o meu filho em cima do peito. Nós dividia a rede e eu com ele, né? Dormia ali. Quando eu cansava muito eu forrava uma coisa debaixo da rede e eu deitava debaixo da rede e deixava ele dormindo na rede, pra proteger dos mosquitos, né? Teve um dia que ele falou assim: “Mamãe, eu tô cansado de passear.” Com um ano e meio. “Vamos pra casa, eu tô cansado de passear.” Aí eu chorava. Doía, doía! E ele passava a mão no meu rosto assim e falava: “Ah, não chora, mãe. Vamos passear.” Aí quando chegava na beira de um córrego, de um rio assim, de um córrego, ah, aí era um festa. Você sabe quando assim, aquela campanha, quando chega, que vê água? Ai que delícia, a gente entrava com roupa e tudo e aí era uma festa, fazia aquela festa dentro da água. E os bois também, né? Mortos de sede.

P/1 – Que delícia!

R – Aí eu lavava a roupa. Aí esperavam, né? Lavava roupa, secava, tomava o banho, tudo... trocava lá debaixo da carreta. Isso aí.

P/2 – Numa dessa nós já tínhamos voltado pra trás.

P/1 – Dez dias viajando assim... E que cidade vocês foram?

R – Imagina se agüenta, né?

P/2 – De carro a gente vai e já reclama: “ Que calor! Que calor!”

R – Um pouco eu montava no cavalo, ia à cavalo, punha ele na frente. Um pouco a gente voltava a sentar ali. Eu tinha uma sombrinha, então fazia aquela sombra quando o sol batia assim de frente. Aquilo pingava suor, viu? Nossa Senhora! É igualzinho esses fugitivos que vai não sei aonde. Aí um dia eu falei para o Gilberto: “Por que nós estamos fugindo, heim? Do que? Do que nós estamos fugindo?” E aquelas terras do Paraguai é bonita! Aquelas matas, aquelas... muito bonita.

P/2 – E tinha muito bicho na estrada? Era perigoso cobra, essas coisas?

R – Ah, tinha! Em volta da carreta era feito... era forro em volta assim, fazia fogueira, fumaça pra espantar.

P/2 – Onça, né?

R – Onça a gente escutava berro, barulho, aquele urro de onça. Macaco então não se fala. Nossa Senhora! Se descuidava os macacos vinham pegar as coisas da gente ali. Vinha pegar. Não falei pra você que dá uma novela?

P/1 – Dá uma novela. Aí que cidade que vocês chegaram?

R – Vila Concepción.

P/2 – Foram para Assunção, no Paraguai?

R – Fomos para Assunção. Mas aí chegamos... porque eu tinha uma tia lá em Concepción. Então, o meu marido achava que ia encontrar eles, mas não conseguiu encontrar. Não achou, também eu acho que não procurou. Depois nós fomos para Assunção. Agora, quando nós fomos para Assunção já melhorou, que nós fomos num vapor, um vaporzinho, né? É, um naviozinho. Aí já melhorou a história. Mas na cabine do navio a gente foi. Eu não sei se vocês conhecem um bichinho que chama percevejo. Você olhava assim aquela cama, aqueles bichinhos na cama. Meu Deus do Céu, eu falei: “O que é isso?” Porque é muito sujo por lá. Era percevejo, assim.

P/1 – É mesmo? E pica?

R – Nossa Senhora! Ele chupa todo o sangue da gente. Nós chegamos em Assunção.

P/1 – Espera aí. Antes vocês chegaram em Vila Conceição. Aí ficaram pouco tempo lá?

R – Ficamos dois dias.

P/2 – Ah, sim. Tá, agora entendi.

R – Depois aí fomos para Assunção. Nós podia ficar em Assunção, né?

P/2 – Não ficaram em Assunção?

R – Nós podia ficar, nós podia cortar aí.

P/1 – Podia.

P/2 – Podia ter ficado em Assunção...

R/2 – Sim, aí ficou lá um tempo e voltou quando estava grávida de mim. Resume aí, porque senão fica muito comprido.

R – Senão fica muito comprido com tudo o que eu passei lá.

P/2 – Mas quanto tempo, assim, vocês ficaram em Assunção?

R – Em Assunção nós moramos um ano e meio.

R/2 – Aí ela ficou grávida de novo e aí fez a mesma viagem de volta.

R – Aí eu fiquei grávida dela.

P/2 – E ele ficou trabalhando aqui em Assunção?

R – Ah, ele ficou trabalhando no que achava.

P/2 – Em qualquer bico...

R – Em qualquer coisa, em qualquer bico... era carroceiro, era pedreiro, arranca pedra, era ajudante de servente de pedreiro, qualquer serviço que aparecia, só que o que comer não faltava.

P/2 – E morar também, morar vocês arrumaram um lugar.

R – É, uns ranchinhos, uns cubículos lá pra morar. Aí não deu certo e a mesma viagem de volta.

P/2 – De carroça?

R – Não, aí eu já vim num naviozinho.

P/1 – Que a senhora estava grávida?

R – Estava grávida. Estava grávida da Neuda. Só que ele ficou trabalhando ali, só eu... ele ficou trabalhando.

P/2 – A senhora veio sozinha?

R – Eu vim sozinha. Eu vim até Bela Vista, de Bela Vista peguei um trem e vim até Aquidauana. Esse trem vinha até... não, vinha até Bela Vista não, aí vinha até Porto Esperança.

P/2 – A senhora veio com um filho e outro na barriga.

R – Com um filho no braço e outro na barriga.

Neda – E a mala.

R – E uma mala, aquela mala grande, aquela mala que tá aí, né? Só. Aí vim pra casa da minha mãe na mesma chácara...

R/2 – Eu tinha 20 dias quando o meu pai me conheceu.

R – Então, viemos na mesma casa da minha mãe, na mesma... de onde eu saí, de onde eu casei, aí ela nasceu, nessa chácara. Aí ele voltou, conheceu ela, ela tinha 20 dias. Depois disso ele voltou e continuou trabalhando na mesma firma.

P/1 – Ah, tá. Na charqueada de novo.

P/2 – Terceira vez na charqueada?

R – Terceira vez nessa mesma firma. Mas ele ficou muito doente, com maleita, aquelas coisas, que passou muita dificuldade... Aí depois nasceu as três. Aí nasceu esta...

P/1 – A Neuda...

R – A Neuda, a Teresa e a Odila, sem sair mais de lá. Aí quando a Odila já estava com um ano, ele veio pra São Paulo e eu fiquei. Ele veio trabalhar em Barretos...

P/1 – Ah, em Barretos?

R – Em Barretos. Aí nós viemos pra Barretos, aí morei dez anos em Barretos.

P/1 – E ele trabalhava do qu em Barretos?

R – Também em frigorífico. Sempre frigorífico, sempre com carne. Também em frigorífico.

P/2 – Então a senhora foi pra Barretos. Depois que ele se instalou em Barretos aí a senhora foi pra lá?

R – Aí eu vim pra Barretos. Também vim de trem pra Barretos, né? Aí viajando no mesmo trem com quatro filhos. Com uma pequenininha... todos pequenininhos, né? Porque meus filhos eram um perto do outro quase. Ficamos morando dez anos em Barretos. E ele também trabalhando nas firmas. Morei em, Barretos, daí saímos. Morei em Piracicaba, depois voltamos, depois saímos de novo pra voltar... depois de Barretos veio pra cá.

P/2 – E de Barretos a senhora ainda morou em Piracicaba?

R – Morei.

P/2 – Quanto tempo?

R – Ah, uns seis meses, né?

P/2 – Depois voltou pra Barretos de novo?

R – Voltamos pra Barretos de novo. Aí ele inventou de querer ir pra Goiânia..: “Aí, deixa eu contar uma história que é interessante. O ordenado dele não estava dando, apesar do patrão dar uma casa pra gente morar, a casa não era ruim, até era uma casinha mais ou menos... e eu costurava. Quando eu morava em Piracicaba. eu fui aprender corte e costura, porque eu não sabia. Eu costurava... eu era curiosa, costurava... lá em Mato Grosso eu fazia roupa para aquela bugraiada, fazia roupa pra todo mundo, fazia roupa das as minhas crianças, fazia roupa até pra ele, sabe?

P/2 – Isso quantos anos a senhora tinha?

R/2 – Aí ela tinha uns 28, 29 anos mais ou menos.

R – Aí eu fui aprender corte e costura, fui ser mais curiosa, aí em Barretos eu comecei a costurar. Mas não dava, não dava, não dava, sabe? Aí o meu filho já estava com uns 12 pra 13 anos... 12 anos, Neuda? Ele foi pra roça colher algodão, e como estava pagando bem, eu falei: “Sabe de uma coisa? Eu vou com o meu filho para a roça.” Eu deixava a comida pronta, deixava uma vizinha olhando as crianças, ela arrumava a pequena pra ir para o prezinho... eu sei que, olha... e eu fui pra roça. Fiz uma safra de algodão. Ajuntei quatro mil cruzeiros... já era cruzeiro, Neuda?

R/2 – Era cruzeiro, foi a primeira vez que foi o cruzeiro. Saiu do réis e foi o cruzeiro.

R – Quatro mil. Desses quatro mil, eu falei para o meu marido: “ Olha, velho, eu acho que eu vou comprar roupa pra vender.” Ele disse assim: “Mas só com esse dinheiro?” Eu falei: “Só com esse dinheiro.” Aí ele foi comigo em São Paulo. Eu fui pra Rua Oriente, pra uma loja que eu guardo até hoje na minha memória, que deve existir ainda, a loja chama Naum, de judeu. Aí eu comprei calcinha, anáguas, essa coiseira toda... sutiã, esses coisas baratas que dava pra vender rápido. Olha, tive tanta sorte, que numa semana eu vendi tudo aquilo.

P/1 – Numa semana?

R – Aí assim eu fui. Ia, pegava o trem de noite... 11 horas da noite, Neuma?

R/2 – A senhora saía às três da manhã de trem, pela Paulista. À meia noite ela estava em casa de volta.

R – É, saía às três da manhã pra ir pra São Paulo... não, 11 da noite, de Barretos em São Paulo durava cinco horas de viagem.

R/2 – A senhora saía na madrugada, que o papai levava a senhora na estação e chegava à noite. A gente ficava sentadinha na porta até ela chegar. (risos)

R – Mas era de noite, era 11 horas da noite. O trem chegava às sete horas da manhã em São Paulo. Viajava tudo isso aí. Demorava! Eram quatro horas de viagem.

R/2 – Três... quatro, cinco, seis, sete. Ih, criança muito tempo! (risos)

R – Bom, e aí eu comecei a vender a roupa.

P/1 – E aonde a senhora vendia?

R – Eu vendia nas casas, por aí, de porta em porta.

P/1 – Ia batendo....

R – Era a coisa mais difícil quando eu chegava numa casa pra mim fazer assim. A minha mão parava aqui, de vergonha. Mas... Bom, aí eu fui fazendo uma freguesia boa, foi indo... Foi meu comecinho. E o meu marido fez essa viagem, mas voltou. Aí eu mudei de Barretos para Araraquara, pra ficar mais perto as viagens pra mim.

P/2 – Pra São Paulo?

R – É. E eu achava que Araraquara era uma praça boa. Então ficava mais perto, deixava menos tempo os filhos sozinhos, porque já estavam tudo mocinha já. Não podia muito deixar sozinha, né? Ficava menos tempo sozinha. Mas não deu certo. Aí meu marido voltou e achou serviço aqui em Ibitinga, com o Raineri.

R/2 – Frigorífico também.

R – Frigorífico também.

P/1 – Frigorífico também?

R – Também, e ainda tem aí mas não é mais frigorífico, é coisa de bordado.

P/1 – Ah é?

R – Aí eu continuei a vender aqui. Mudei pra cá...

P/1 – Sempre essas roupas?

R/2 – Sempre calcinha, sutiã...

R – Aí até o patrão falou pra mim: “ A senhora muda pra Ibitinga que Ibitinga é um lugar bom. Lá tem uma mulher que tá indo muito bem fazendo bordado, a senhora vai que lá é um lugar bom, Ibitinga, né?” Aí eu vim pra Ibitinga. Aí eu cheguei aqui, eu falei pra ele: “Olha, velho, daqui eu não vou sair mais.” Mas eu já tinha um capitalzinho... até que não... Eu ia a São Paulo, eu comprava, e tinha trem aqui. Esse trem que é Araraquarense, estrada de ferro. Eu pegava o trem e ia até Novo Horizonte, mas eu ia parando nas turmas. Turmas é assim, as paradas de trem que desce...

R/2 – Que faz a manutenção.

R – Que desce gente para as colônias...

P/1 – Sei, das fazendas...

R – Das fazendas. Naquele tempo as colônias eram tudo cheias. Todas as casas tinha bastante gente, né? E eu vendia pra aquela gente de colônia, tudo. Aí eu pegava encomendas aí.

P/2 – Aí aproveitava já na ida pra comprar...

R – É, quando eu vim pra cá... foi em 55 que eu vim pra cá, em meados do ano.

R/2 – Dia 17 de Julho de 55.

R – É, 17 de Julho de 55 chegamos em Ibitinga. Bom, mas trabalhei assim... aí vendi aqui mesmo, arrumei uma freguesia aqui, vendia... o pessoal ia comprar em casa. Aí eu conheci a Adelina Reã

P/1 – Adelina Reã?

R – Adelina Reã.

R/2 – Essa é importante vocês conversarem.

R – É, essa aí vai começar a história. Aí que vai começar a minha história.

P/2 – No bordado.

P/1 – É, porque até agora tem uma história linda.

R – Mas eu não tinha assim, uma referência, eu era novata aqui e tudo, mas eu já tinha uma freguesia em Barretos.

P/1 – Das roupas?

R – Das roupas. Eu ia em Barretos sempre uma vez por mês, receber o que eu tinha lá. Eu deixei um bom dinheiro esparramado lá, né? Aí eu ia buscar lá.

P/1 – Como... o pessoal pagava em prestação? Como era?

R – Tudo prestação.

P/1 – E na base da confiança?

R – Na base da confiança. Tudo cadernetinha. Não tinha cheque, não tinha nada. E o pessoal pagava tudo, ninguém dava calote.

R/2 – É igual hoje mesmo que as vendedoras passam nas casas...

R – Aí... porque o que não é bom pra pagar, não adianta, viu? Não paga bem mesmo. Aí eu levei esse remessa de bordados pra Barretos e não vendi uma peça do bordado.

P/1 – Por que?

R – Porque a freguesia que podia comprar os bordados, era gente mais chique. As gentes chiques compravam Ilha da Madeira, que aquele tempo aquelas coroona, filhos de coronéis, filhos de gente assim, mais riquinho, né? Tudo era bordado à mão que eles queriam, bordado à máquina não foi aceito em Barretos.

P/2 – E esse bordado era com a dona Adelina...

R – Com a dona Adelina Reã?

P/2 – Que ela já fazia?

R – Já fazia. A Dioguina também.

R/2 – Foi discípula da Dioguina.

R – Essa Adelina foi funcionária, foi discípula da Dioguina.

P/2 – E esse bordado que elas começaram então era à máquina?

R – À máquina.

R/2 – Maquininha, máquina simples.

R – E pra devolver esse bordado? Devolvi tudo, não vendi nada porque eu levava em consignação. Aí depois falei: “Vou fazer uma viagem para o Paraná.” Catei meu filho, peguei uma outra senhora, dona Georgina...outra mulher. Aí ela me deu, era uns bordados mais coloridos, umas coisas assim, né? Peguei uma remessa de bordado dela. Da outra não peguei mais, nem me deu , porque eu não vendi, e da Dioguina também eu não fui buscar porque... Aí eu peguei esses bordados dessa outra mulher...

P/2 – Da Georgina?

R – Da Georgina. Era Adelina, Dioguina e Georgina.... três. Levei para o Paraná, para Cambé. Aí fui com o meu filho, é isso filho que está aí, o Nei. Esse aí era o meu companheiro de... E vendi tudo, não voltou uma peça.

P/2 – Foi para o Paraná e vendeu tudo?

R – Tudo, tudo! Vendi tudo!

P/2 – Em que cidade a senhora foi? Foi para o Paraná inteiro? Andou tudo?

R – Eu fui pra Londrina e Cambé . Mas aí, Nossa Senhora, fiquei feliz da vida. Vim... e ela estava apertada também a mulher, né? Disse: “Como é, Maria, vendeu?” Eu falei: “Olha, vendi tudo, graças a Deus. Não sobrou nada.” Dei o dinheiro pra ela, ainda ela me deu uma boa gorjeta, além do meu lucro. Porque ela me dava por um tanto, eu vendia por outro, né? Aí eu falei: “Pena que não pode deixar fiado.” Ela falou: “Na próxima vez eu vou te dar um prazinho.” Mas aí a Adelina soube e também na próxima viagem a Adelina me deu o bordado. Aí eu fui com o das duas.

P/2 – Para o Paraná de novo?

R – Paraná de novo. Tornei a vender. Só que aí eu falei: “Ah, é ruim porque tinha que ficar em hotel.” Aí arrumei um casa pra ficar lá em Cambé, a mulher falou... era gente daqui, falou: “Você fica aqui na minha casa, você vem, pode ficar à vontade, vender seus bordados, tudo.” Ah, me arranchei. Aí me arranchei a vida inteira lá, né?

P/2 – E nessa época o bordado de Ibitinga nem...

R – Eu não falava que era de Ibitinga. Eu falava que isso aí era do nordeste, que era do Ceará.

P/1 – A senhora falava?

R – É. É pequena, né? Depois aí comecei a pegar da Dioguina também, aí eu levava o bordado das três. Eu trabalhei assim mais ou menos um ano e pouco, levando.

P/2 – Levando das três?

R – Das três.

P/1 – Tinha alguma diferença do bordado da Adelina para o da...

R – Muita diferença de bordado.

P/1 – Qual era a diferença?

R – Porque a Dioguina fazia um bordado mais matizado, mais colorido. A outra já fazia um bordado assim...

R/2 – Da Sampaio sempre foi um pouquinho mais fino, sempre mais de bom gosto.

R – É, sempre foi mais fino. Da Adelina era um bordado... Por exemplo, uma toalha dessa aqui, a gente via uma toalha dessa aqui, a gente tirava os desenhos. Isso aqui fazia richelieu, sabe? Esse tipo assim. Aqui deixava pano. Aqui deixava. A gente tirava esses desenhos assim. Entendeu? Então uma toalha dessa eu transformava ela num trabalho mais lindo.

R/2 – A variedade ia assim, do gosto de cada um.

R – Mas tinha só a maquininha, só aquelas maquininhas de bastidorzinhos lá que era... Mas como nesse um ano eu ia pra São Paulo, eu ia lá pra Oriente, pra lá, mas eu continuava trazendo roupas pra vender, mas aí foi melhorando, menina eu já vestia tudo, continuava trazendo. Aí eu vi aquelas máquinas que fazia aqueles bordados cheios, falei: “Ah, meu Deus, eu vou comprar uma máquina dessa!” E tinha um senhor aqui, Egídio Catalano, ele transformava as máquinas, era vendedor da Vigorelli, aí eu falei: “Seu Egídio, por que o senhor não traz umas máquinas daquelas pra nós, da Singer?” Aí ele trouxe, trouxe duas pra Adelina e duas pra mim. Aí eu já comecei a fazer o bordado.

P/1 – E como a senhora aprendeu?

R/2 – Ah, as meninas que aprenderam, a minha irmã, a Odila aprendeu...

R – É, foram aprendendo. As meninas aprenderam e foram...

P/2 – Aprendendo e fuçando mesmo?

R – É, e depois eles ensinavam a gente como fazia, né? Aí foi aperfeiçoando, aperfeiçoando.

Neuda –A té chegar aonde chegou.

R – E até nesse tempo a Dioguina falava assim: “Ah, esses bordados de máquina industrial é feio porque não sei que...” Mas quando eu peguei as duas máquinas eu já tinha conhecido um cearense, porque o bordado do Ceará era tudo feito com esses máquinas. Eu já tinha conhecido um cearense, que eu comprava os bordados do Ceará, e vendia, né? Eu fazia pacotes assim, de enxoval pra vender. Aí ele falou: “Ah, dona Maria, a senhora quer fazer bordado pra mim? Eu mando as colchas pra senhora bordar.”

P/2 – E aonde a senhora conheceu ele?

R – Conheci em São Paulo. Por acaso eu conheci ele numa loja, ele entregando uns bordados lá e eu fui na fábrica dele. Aí comecei com os bordados. Aí foi aumentando...

P/2 – Aí a senhora parou de viajar para o Paraná?

R – Não, para o Paraná viajei a vida inteira.

P/2 – Sempre foi vender?

R – Sempre fui vender, sempre eu levava.

P/2 – E paralelo a isso ainda a senhora fazia...

R – Arrumei vendedoras... aí eu não ia de porta em porta, eu tinha vendedoras, eu deixava nas casas para elas revenderem. Eu deixava no Paraná, várias cidades, desde... aí eu comprei já... construí primeiro uma casa. A primeira casa um vendedor, um crente, pastor de uma igreja me deu um calote, precisei vender a casa para pagar as minhas dívidas. Comecei de novo a fazer outra, aí fiz outra, aí depois comprei o telefone, entrei no consórcio e tirei o carro em três meses. Aí arrumei um motorista. Aí trabalhei com esse motorista uns 14 anos.

P/2 – E começou a fazer o bordado?

R – É, mas nesse meio tempo aí a gente ensinava...

Neuda– ...final da história, que era o objetivo dela, parar no lugar e criar os filhos. Então todos nós estudamos, fizemos magistério, que era o que tinha aqui na época. Todos nós fizemos magistério, eu sou aposentada como professora, o Nei é aposentado como diretor de escola, só as duas mais novas que pegaram mais o ramo de comércio, mas elas têm o diplominha delas.

P/2 – De magistério também. Os quatro magistério?

R – Era o que dava, era o que podia dar pra elas.

R/2 – O que na época tinha aqui na cidade era o magistério e o comércio, a Escola Comercial.

P/1 – Ah, a Escola de Comércio.

R/2 – A Escola de Comércio que tem até hoje. O Nei fez as duas, ele é contador e professor. Ele aposentou como diretor de escola. Então, todos criaram bem os filhos, nós casamos depois... a esposa do meu marido é daqui de Ibitinga, o meu marido também é daqui, depois as duas se casaram com de fora...

P/1 – Pessoal de fora.

R – Mas nesse meio tempo, nessas viagens do Paraná, antes de eu ter carro, antes de eu ter casa nem nada, viajando lá para aquele norte do Paraná tinha uma mulher dando uma criança.

P/2 – No Paraná?

R – No Paraná. Nova Esperança. Agora mudou de nome.. Aí eu fui para Nova Esperança e essa criança vinha mexendo comigo. Era uma criancinha pequenininha, não tinha nem um ano.

P/2 – Era menino ou menina?

R – Menino. Vinha brincando comigo. 11 meses. Bem branquinho, né? E a que estava com ele era uma preta. Brinquei bastante com ele. Na volta, coincidiu na volta que ainda ela estava na estação rodoviária esperando o ônibus. Voltamos junto. Mas esse menino se apegou comigo de um jeito. Eu falei: “Mas que criança linda, é seu filho?” Ela disse: “Não.” Disse: “A mãe quer dar ele.” Falei: “Quer dar?” Mas eu estava pobre ainda, estava com dificuldade.

P/2 – A mãe queria dar? E o que ela estava fazendo?

R – A mãe queria dar. Ela falou: “A mãe quer dar ele.” “Ah é?” Aí eu fui procurar a mãe. Não é que eu pego o menino pra criar? Eu não tinha carro, a gente não tinha casa pra morar ainda. Eu estava começando a minha vida.

P/2 – Aqui, já?

R – Aqui, é. Ainda estava em dificuldade, sabe? Eu estava começando ainda. Isso foi nos anos 60, a vida estava dura ainda, viu? Não tinha carro nem nada, viajava de ônibus, eu viajava. Aí eu peguei, trouxe, falei: “Olha o que eu ganhei?”

P/1 – E aí?

R – Aí criamos ele.

P/1 – E o marido da senhora?

R – Ah, ele adorou. Ele adorou porque ele é aposentado, ele aposentou, o meu marido aposentou... aposentado é salário mínimo, ... e era uma distração pra ele, que o meu marido era bem mais velho, aposentou ficou em casa, ficava em casa.

R/2 – Foi bem recebido.

R – Foi bem recebido, ele. Ainda tive coragem de pegar mais um.

P/1 – E até hoje...

R – Agora é casado, tem três filhos maravilhosos.

R/2 – A mais velha está com 17, o outro com 16...

P/1 – Nossa, a mais velha já está com 17?

R – O meu casamento durou uma vida inteira: “Até que a morte nos separe.” Foi esse e foi só esse.

P/1 – Que lindo. Foi paixão à primeira vista. Amor.

R – Foi uma coisa assim, que nunca passou pela minha cabeça uma separação.

P/2 – É difícil isso, viu? Vou contar uma coisa pra senhora. Se separar, olha!

R – Lá no Paraguai, quando eu fui... porque eu fui de repatrio, eu não tinha dinheiro pra vir embora. O meu marido foi buscar serviço...

P/1 – Ah, a senhora veio... foi repatriada?

R – Fui repatriada.

P/2 – O que é? Eu não sei.

R/2 – É quando o país estranho te...

P/1 – Te manda embora.

R – Para o teu país.

R/2 - É um repatrio.

R – Então como a gente não tinha dinheiro, não tinha condições de voltar, tivemos que separar. Ele ficou trabalhando, dando um jeito pra ele vir e eu fui no Consulado, né? Aí o cônsul... contei a minha história, essa história das viagens de carreta, essas coisas todas, ele falou: “Minha filha, teu marido é um louco. É um louco varrido.”

R – Eu pulei o do meu casamento. O juiz não aceitava fazer o meu casamento em Aquidauana.

P/2 – Por que?

R – Porque eu era menor. E meu marido era muito enfezado... meu marido é como aquele italiano, quase como aquele que aparece na televisão, assim meio...

P/1 – Bravo?

R – É, esse...

P/1 – O Matheo?

R – É, esse italiano que casou com...

P/2 – Italiano assim, que fala...

R – É, só que ele fala o espanhol. Aí não aceitou meu casamento em Aquidauana. Aí ele foi em Taunay no cartório lá, e lá o tabelião fazia o casamento. Aí nós fomos lá para Taunay. Fomos de trem também... não, fomos de trem de carga.

P/1 – Trem de carga?

R – É. Eu, a minha mãe, dois irmãos e ele e os acompanhantes. Aí casamos nessa cidade que tá aí, olha, nesse Fôro.

P/1 – Taunay?

P/2 – Aquele que tem ...

R – Taunay não. É Taunay. Taunay é uma aldeia de índio também. Isso aqui é uma vilinha aí. Tá do mesmo jeito até hoje, até o cartório está do mesmo jeito lá em Taunay. Há 70 anos atrás, está do mesmo jeito.

P/2 – É mesmo?

R – Igual. Aí o nosso casamento foi lá.

P/2 – Foi no cartório...

R – Foi no cartório... Aí quando cheguei em Aquidauana... Aí voltamos. Quando chegou em Aquidauana aí foi o casamento que fizemos na igreja.

P/2 – Isso aqui é Taunay?

R – Essa aí é Pantanal.

P/1 – Aí foi o casamento na igreja, em Aquidauana?

R – Em Aquidauana.

P/1 – Aí podia casar lá?

R – É, na igreja podia.

P/2 – Depois do cartório na igreja o padre não ligou?

R – Não. Então, foi... viajamos de trem de carga. (risos)É uma comédia.

P/2 – Deixa eu perguntar uma coisa que eu fiquei curiosa. Daqui, quando a senhora começou a fazer os bordados... a senhora chegou a abrir loja da senhora? Como foi? Onde a senhora fazia? As máquinas eram todas juntas? Como foi?

R – Eu tinha a fábrica, a fábrica na mesma casa. Fazia o salão no fundo... que eu tive, a maior parte do tempo foi lá em frente ao ginásio. Aí abri o salão no fundo, eu tinha a casa e eles trabalhavam lá. Cheguei a trabalhar muito, cheguei a trabalhar com 300 e tantas pessoas, entre pessoas funcionárias de salão das máquinas e as máquinas que eu... eu tinha 40 máquinas. Eu distribuía fora para as mulheradas trabalhar. Por causa do encargo trabalhista, porque se a gente for pagar todos os encargo trabalhista não cresce, não vai, então tem que subornar um pouco o governo, porque senão não vai, não vai, viu? Se for pagar tudo em cima, tudo do jeito que o governo quer, não consegue.

P/1 – Não dá, né?

R – Não dá.

P/2 – Você mais paga do que ganha.

R – Isso aí até pode ser publicado, porque é verdade uma coisa dessa aí, viu?

P/1 – Me fala uma coisa, qual foi o período melhor assim, pra Ibitinga, pra coisa do bordado, que cresceu?

R – Ah, o período melhor para o bordado foi na época das feiras do bordado, que abriu... que teve aqui a Feira do Bordado.

P/2 – E quem fundou isso? O prefeito? A senhora ajudou?

R – Eu ajudei.

P/1 – A senhora fazia parte da...

R – É, quem foi da comissão era a doutora Imaculada, foi... Ah, tinha várias aí que eu já não me lembro mais, né? Aí foi convocando a turma.

P/2 – E a senhora também fazia?

R – Eu também. A gente fazia reunião, o padre Otíneo também ajudava muito, a reunião era sempre lá na casa paroquial que a gente fazia.

P/1 – Ah, é?

R – É. Aí a gente reunia... às vezes ia na Prefeitura, era o Victor Maida, também ajudou bastante. O Victor Maida me ajudou muito com esse negócio dos bordados, viu? O doutor Victor Maida, que era prefeito daqui. Depois entrou outros prefeitos também: Nicola Lucinho... e foi bom. Uma época deu pra ganhar dinheiro. Agora tá muito difícil, viu? Agora não tá mais fácil. E com isso... você vê, o começo dos bordados era esse, essas bordadeiras. E a Dioguina foi uma lutadora... uma lutadora mesmo. Depois ficou os filhos, depois Sampaio.

P/1 – Eles estão até hoje, a família?

R – É, tá, mas já não é mais assim, já é loja, já é coisa, né? O meu era fábrica mesmo.

P/2 – Sua filha deu continuidade a alguma coisa da fábrica da senhora ou mudou um pouco?

R – Ela continua. Ela continua fazendo aqueles bordados. Ela faz muito paramento pra igreja, ela faz toalhas pra igreja...

P/2 – E continua tendo feiras aqui, de vez em quando?

R – Continua, mas ela não participa mais.

P/2 – Não?

R – Não. As feiras, a maior parte...

P/2 – Deixa eu perguntar uma coisa do casamento da senhora, o seu pai e sua mãe deixou a senhora casar sem problema nenhum?

R – O meu pai já era falecido.

P/2 – Ah, é. Tá. O tio da senhora ficou responsável no caso, não?

R – O meu tio saiu fora da jogada, sabe? Aí encrencaram. Aí brigaram. Sabe porque? Porque ele queria ter o meu direito, o direito dele... é, não deixou.

P/2 – E ela deixou a senhora casar sem problema?

R – Deixou, deixou. E precisava, né? Porque a gente era muito... era muita gente, precisava alguém saindo, né? Mas casei, bem casadinha, casei novinha.

P/2 – E que bom, casar assim novinha e ficar a vida inteira....

R – O primeiro namorado... isso que eu falo, no tempo da gente não tinha nada. Eu fui conhecer fogão a gás aqui em Ibitinga. Logo que eu mudei em Ibitinga era fogão à lenha também, aí consegui comprar um fogão à gás.

P/2 – Com os bordados que vendia?

R – Como dinheiro dos bordados, eu consegui, mas a minha vida inteira foi fogão de lenha e carregando lata d'água na cabeça. Nunca tive pagem para os meus filhos, nunca tive empregada, eu mesma cuidava deles, eu mesma cuidava da casa, eu mesma costurava. Lá em Mato Grosso eu também inventava, costurava para aquelas mulheres lá. Lutei, né? Minha luta... hoje em dia não, casa e tem de tudo, no outro dia tá largando. E a vida é completamente diferente. A mulher quando casa hoje em dia já experimentou aí dez, 20, 50 homens, já está mais repassada do que esfregão de panela. Meu marido que falava assim, né? E criei a minha família bem bonitinha e a minha família linda, maravilhosa, viu?

P/2 – Linda, linda! Eu estava olhando os netos da senhora, são lindos!

R – Eu tenho 13 netos. 13, perdi um, filho dela, perdi um. Tenho 13 netos, oito bisnetos.

P/2 – Oito bisnetos? Pelo amor de Deus! Que maravilha! Que delícia!

R – E graças a Deus não tem nenhum, nenhuma das minhas filhas foram separar de marido, nenhuma das minhas netas...

P/2 – Que a senhora podia até ser comida por um jacaré lá no Pantanal, porque o que a senhora andou lá...

R – Não, no Paraguai eu morava no Pantanal. No Chaco, do Paraguai. Lá eles falam Chaco. E lá se pegava água com lata. Um dia eu fui pegar água... Assim, pegava água numa represa, uma represa grande. Eu ia pegar água lá, mas tinha que atravessar aqueles aguapés, aqueles cavalotes assim, você conhece aquelas folhas grandes assim que dá uma flor?

P/1 – Vitória Régia?

R – Não, é aguapé.

P/1 – Ah, eu sei qual é.

R – Aí tinha que passar pra pegar água mais no fundo, pra pegar água limpa que era pra fazer a comida. Olha, uma sucuri me deu um bote que a lata foi longe ainda. Eu estava com o menino, eu deixei o Nei assim, mais no alto e eu fui pegar água. Ai, meu Deus, eu joguei a lata e catei esse menino e saí. Eu só senti o “puf” da sucuri, o barulho da água.

P/2 – Ai que medo!

R – E não passava nem pela minha cabeça. Ah, e teve um trecho, quando do meu repatrio, que eu quis contar e não terminei ainda... depois vocês corrigem isso aí certinho. Aí o cônsul, o brasileiro, falou: “Minha filha, teu marido é um louco. Como te trazer num lugar assim, miserável? Aqui todo mundo é miserável, todo mundo é pobre.” E pobre mesmo, uma pobreza no Paraguai, você precisa ver o horror lá no Paraguai, a pobreza. "Te trazer num lugar desse pra morar, sendo o Brasil um país tão rico, tão cheio de fartura? Olha, você não quer ir comigo para o Rio de janeiro?”

P/1 – Ele falou isso pra senhora?

R – É, o cônsul, era o doutor Mário. Eu falei: “Não, doutor Mário. Por que?” Ele disse: “Não, eu tenho minha mãe e a minha mãe precisa de uma companhia. Eu cuido de seus filhos, os seus filhos vão estudar, os seus filhos vão ser doutor, eu vou dar tudo o que puder pra eles. Agora, você desse jeito...” Eu nem roupa não tinha. Até a roupa foi dada por eles também. Eu falei: “Não, eu vou para o Mato Grosso junto da minha mãe, lá eu vou esperar o meu marido, ele vai voltar.” Eu disse: “Como eu vou criar os meus filhos longe do pai? Imagina! Nem pensar!” E eu chorava, nervosa, né? “ Nem pensar!” Eu falei: “ Eu estou aqui de pedir para o senhor o que a minha pátria tem obrigação de fazer comigo. Eu não estou pedindo para o senhor, eu estou pedindo o que a minha pátria tem por obrigação de fazer comigo, de me mandar embora. Ele passou a mão na minha cabeça: “Minha filha, você tenha juízo, viu? Deus que te acompanhe.”

P/1 – Que lindo!

P/2 – E ele ainda queria levar a senhora para o Rio de Janeiro?

R – Mas se a gente fosse da cabeça um pouco fraca, ele solteiro, então ia.

P/2 – Mas a senhora amava esse marido, né? Ama esse marido!

R – E não foi bom? Os meus filhos não estão aí. E não foi bom?

P/2 – E olha isso aqui, essa bisneta da senhora.

R – E não foi bom? Se eu tivesse largado dele e ia para o Rio de janeiro, como eu ia conhecer essa neta maravilhosa e esses filhos lindos? Não tinha. Isso é que eu falo, o quadro da vida da gente, a gente vai formando e tem que ser bem planejado, bem feito. E vai desenrolando. E a gente não pesar para o lado do mal. Não pensar que se a gente roubar esse daqui: “Ai, eu vou levar esse daqui aí eu não compro. Olha, eu trabalhei feito uma louca, nunca tirei nada, nada de ninguém. Nunca dei um calote, eu tive aqui vários avalistas, nunca dei prejuízo pra eles, nunca pensei em dar prejuízo pra ninguém. Teve uma passagem da minha vida, eu estava apertada de dinheiro, precisava muito pagar uma conta de banco tudo, levei uma remessa boa de roupa, mas estava difícil de vender. Daí eu fui em Rolândia com umas peças de bordado, e uma mulher fez uma compra de 3.500 cruzeiros, eu acho que era cruzeiros. Ah, eu fiquei contente, ela comprou colcha, uma porção de coisas, naquele tempo era bastante dinheiro, mas eu precisava mesmo era de 30 mil, eu precisava pra pagar, eu tinha levado esse tanto de mercadoria. Aí eu fiz essa venda, eu fui no banco. Aí o caixa do banco pega e me dá pacote, pacote, pacote e meio pacote. Eu puxei assim do lado, aquilo eu fiquei azul, cor de rosa, o meu coração parou. Eu falei “Meu Deus, quanto dinheiro!” Eu pensei: “ Esse cheque tá errado.” Aí eu quis pegar pra pôr na bolsa, mas o meu braço doeu. Eu pensei na hora: “Esse rapaz vai preso, né?” Aí eu olhei, eu vi que tinha muito dinheiro, tinha 30 mil, 35 mil cruzeiros, ao invés de três mil e quinhentos. Aí eu falei: “Moço...” E ele estava atendendo, já tinha atendido mais dois, né? E naquele minutinho eu estava pensando. Aí deu uma olhada pra mim e disse: “Por que, a senhora acha que não está certo?”, ainda ele falou pra mim, né? Eu olhei pra ele e falei: “Não, olha o cheque, não tá certo.” Ele olhou... olha, quase ele desmaiou, ficou da cor disso aí. Ele não teve voz nem pra me agradecer. Pegou dali daquele monte, tirou o dinheiro pra mim e não teve voz nem pra me agradecer. Ninguém me conhecia, podia ter posto na bolsa aquilo ali, saía, pegava o ônibus na rodoviária e ia embora. Mas e a minha consciência? E Deus? E a minha consciência? Pensar que aquele moço estava na cadeia às vezes, ou sofrendo, quanto tempo ele sofreu pra pagar esse dinheiro. Aí quando eu cheguei na casa eu ficava: “Dona Catarina, me aconteceu isso, isso, isso.” “E a senhora não pegou?” Eu falei: “Imagina!” Ela é meio italianada. “ E a senhora não pegou? Ah, se fosse eu! Se fosse eu não pegava também.” Tem gente que fala assim: “Ah, nessas alturas eu já estava comprando uma fazenda pra mim com o seu dinheiro, né?” Eu falei: “Mas, não.” Você acredita? Fiquei mais uma semana, eu vendi todinha a roupa e consegui o dinheiro que eu precisava. Eu fui na igreja não sei quantas vezes agradecer. Eu falei: “Tá vendo dona Catarina, como o meu anjo da guarda “O seu anjo da guarda é bom.” Eu falei: “O meu anjo da guarda...”

P/2 – A senhora não tem preguiça.

R – Olha, hoje em dia matam por uma porcaria, uma insignificância. Mas isso aí foi maravilhoso, uma experiência..., uma coisa mais linda pra minha vida, viu? Quando o dia que eu estava mais apertada, desesperada... Falei: “Meu Deus...” Porque depois eu comprava sítio, eu vendia sítio, eu comprava chácara, eu comprava casa, eu vendia casa, eu fazia aquelas tramas. Era sobrar um dinheiro eu estava comprando, porque eu nunca acreditei em dinheiro.

P/1 – Guardado?

R – Nunca acreditei, nunca tive dinheiro em banco.

P/1 – Ah, é?

R – Não, eu pegava o dinheiro, eu comprava uma coisa. Quando eu me apertava eu vendia aquela coisa. O Roque de Rosa...

P/1 – O que?

R – O Roque aqui, Roque de Rosa, que é da rádio antiga, ele veio pra cá depois que eu vim... então ele chegava no banco e: “Como é, dona Maria, a senhora tem um dinheirinho aí?” Eu cedia alguma coisa pra ele fazer negócio. Ele comprava terreno, vendia terreno pra mim... Era meu...

P/1 – Sócio da senhora?

R – Não, era meu corretor, meu perdigueiro. Eu pus perdigueiro pra achar coisa barata, assim. Aí eu não tinha dó, eu comprava. Era pra vender, porque se não vendesse pra mim vendia pra outro, não é mesmo?

P/2 – É verdade.

R – Então a gente fazia esses negócio assim. Eu trabalhei, lutei muito. Porque o meu marido era muito de idade, ele parou de trabalhar, aposentou, a aposentadoria dele era o salário mínimo. O dinheirinho que ele ganhava... o Paulo Roberto, que é esse meu filho, o caçula, o adotivo... que é meu filho, né? Está no meu nome, é herdeiro igual aos outros. Ele gastava todo o dinheiro que ele ganhava, que o meu marido pegava e dava o dinheiro pra ele gastar, né? Ele gastava tudo.

P/1 – E falando assim, da senhora... vamos voltar um pouco. Da senhora assim, como consumidora. O que a senhora gosta de comprar? Ou gostava?

R – Ai, minha filha, eu gostava de comprar tudo aquilo que estivesse na bacia das almas e pudesse vender. Eu gostava de comprar casa, vender casa, comprar terreno, vender terreno, comprar sítio, vender sítio. Eu gostava disso. Eu adorava fazer negócio. E gosto. Parei porque não tem mais jeito. Uma que não tem mais dinheiro e não tem... mas eu adoro mexer. Adoro fazer casa, construir, vender...

P/1 – A senhora construiu bastante?

R – Ah, agora faz três anos, nem três anos fiz a última casa. Adoro mexer com essa coisa.

P/1 – Que beleza! E dos bordados... vamos tentar...

R – Dos bordados eu não quero mais nem ver fazer bordado.

P/1 – A senhora não agüenta mais?

R – Cansei. É.

P/1 – É?

R/2 – Ficou diferente hoje.

R – Ficou diferente.

P/1 – O que mudou mais?

R – Ai, mudou tanto.

R/2 – Sabe o que mudou? Eu acho assim, naquela época, aquele pouco que ela fazia, que a gente ajudava até pra pagar a Manuela pra vir em casa, você fazia e sabia que ia vender. Ela saía e vendia. Hoje está difícil. Hoje se faz um bordado bom, como era o que ela fazia, é difícil de vender porque tem muito. E o bordado também, foi se degenerando, degenerando. Já não é mais aquilo, já não é mais mesma coisa. A senhora tem alguma peça aí? Eu tenho uma daquela que a senhora meu deu, uma inteira bordada.

R – Vou falar pra você, e criei esses meus filhos sem deixar na mão de ninguém, de ninguém. E são os filhos que só me deu alegria até hoje. Até hoje os meus filhos só me deu alegria, porque eu tenho cinco filhos maravilhosos.

P/1 – Beleza!

R – Esse também, o Paulo. São três mulheres e dois homens. O paxazão é o mais velho, o Nei.

P/1 – Ah, o Nei? O Nei é o mais velho.

P/2 – O Nei é que agüentou as viagens duras.

R – O Nei que agüentou as viagens duras.

P/1 – Ele lembra disso?

R – Não, ele era pequenininho, ele tinha... ele veio pra cá para o Brasil não tinha três anos ainda quando a Neuda nasceu. Ele era pequenininho ele não lembra de tudo isso.

P/1 – E qual bordado a senhora gostava mais de fazer?

R – Ah, eu gostava de tudo, eu gostava aquele que tinha encomenda.

P/2 – O desenho que a senhora mais gostava de bordar?

R – O richelieu, adorava!

R/2 – Olha quanto aqui. Quando ela começou a ir era isso daqui, quando nós chegamos em Ibitinga era isso.

R – A encomenda para o Ceará era esses bordados aqui.

P/1 – Isso tudo era feito à máquina?

R – Tudo à máquina, tudo na maquininha.

P/1 – Mas qual é a diferença desse pra esse? É o ponto?

R – Esse ponto é crivo, esse ponto é o cheio. Mas essa não era a máquina elétrica, industrial.

P/1 – É aquela maquininha

R – Maquininha.

P/1 – E esse aqui que é o richelieu, né?

R – O richelieu.

P/1 – E o tecido é linho?

R – Não, é cretone. Não existe mais esse cretone.

P/1 – Não existe.

R – A gente chamava de linhol isso aqui.

P/1 – Linhol? Ele não amassa?

R – Não, ele amassa.

P/1 – Já vinha com desenho e bordava em cima? Como era?

R – Não, filha, isso aqui nós tirava o desenho... tô falando assim, tá vendo essa toalha aqui? Aqui a gente punha um papel e tirava esse desenho aqui. Aqui por exemplo eu fazia um cheio, fazia os pistilos, aqui fazia um cheio, pistiladinho, podia pôr uma flor desfiada, aqui fazia um richelieu, aqui formava um desenho.

P/1 – Nossa, que coisa mais linda!

P/2 – E esses buracos assim, por exemplo?

P/1 – Esse é o richelieu.

R – Esse aqui é o richelieu. Esse aqui é um zigue-zague. É o cheio, e os buraquinhos. Buraquinhos a gente faz assim, a moça ... a gente fura com a tesoura...

P/2 – Ah, fura com a tesoura. Isso aqui também, cortinho, buraquinho...

R – Tudo fura com a tesoura, só faz o buraquinho.

P/2 – Ah, então desenhava primeiro e ia...

R – Desenhava, era riscado com carbono.

P/1 - Quanto tempo a senhora demorava pra fazer?

R – Olha, uma toalha dessa, por incrível que pareça, em dois dias estava pronta.

P/1 – É 1/40 por 1/40?

R – É, a colcha também era assim, inteirinha. Isso aqui é dos primeiros bordados. Até eu ia doar essa toalha ali no museu, mas eu fiquei com dó. Foi presente da Georgina.

P/2 – É maravilhosa essa toalha.

P/1 – É mesmo?

R – Foi um presente da Georgina que me deixou.

P/2 – Que toalha maravilhosa.

P/1 – Nossa, é linda. E a combinação de cores, era vocês que bolavam, vai testando...

R/2 – Aquela cor de rosa a senhora deu para a Fabiana, aquela de lírio?

R – Não, a de lírio está aí. Tá dentro do guarda roupa.

R/2 – Ah, então, mostra pra elas, elas nunca viram uma daquelas.

R- Tá dentro do guarda roupas.

R/2 – Essa vocês conhecem. Isso aqui ainda faz, a minha irmã ainda faz esse tipo de trabalho.

P/2 – E faz blusa, essas coisas também? Roupa?

R – Eu fazia muita camisola.

R/2 – Isso ela nunca fez. Só camisola.

P/2 – E sua irmã faz hoje em dia bordado em camisa, essas coisas?

R/2 – Não.

R – Mas aqui tinha quem fazia, mas depois né?

P/2 – Então, o forte do bordado foi em 60, 70 o auge?

R – Ah, os anos 80 deu uma melhorada. Dos 70 aos 85.

P/2 – Dos 70 aos 85?

R – É.

R/2 - Tem peças grandes assim que tem também o abertinho.

P/2 – Lindo, né? Olha que fofura aquela rosa, que linda!

P/1 - Mas esse não é o que a gente encontra hoje aqui, né?

R/2 - A minha irmã ainda faz. Isso aqui ela me deu faz uns três anos, ela ainda faz isso aqui.

P/1 - Que coisa mais linda!

P/2 - Que coisa mais linda! Dá vontade de chorar de tão linda, é muito linda.

P/1 - Dá até dó de usar, não dá?

R/2 - Ah, dá. Eu vou enfeitando uma mesa...

P/2 - No natal e ano novo, só.

R – Isto aqui é toda feita na maquininha.

P/1 – Esse é o richelieu?

R/2 - Richelieu e crivo. Olha, isto é richelieu, isto é crivo.

R – Era 30, 40 dias pra fazer isso.

P/2 – Isso é richelieu que chama?

R – Não, isso é crivo.

P/2 – Crivo. E richelieu é esse aberto.

R – É.

P/1 – E 30, 40 dias para fazer uma toalha dessa?

R/2 - É, você dava na mão de uma bordadeira e ela ficava um mês, uns 40 dias...

R - Já dava riscada.

P/1 – Aonde está vazado ela tinha que cortar tudo?

R/2 - Quando está vazado ela tirava com a tesourinha...

P/1 - Tirava com a tesoura, tira o molde...

R – Esse aqui a gente dava desfiado. Dava desfiado, desfiado...

R/2 - Desfiado o crivo. Aonde é o richelieu primeiro ela fazia uma costura, aí ela fazia todo o richelieu depois ela fazia esse bordado. Aqui tem um cordonet ainda.

R/2 - Aqui, olha. Aqui dentro tem um cordonet.

P/2 - Passava?

R/2 - Passava.

P/2 - E bordava por cima do cordonet?

R/2 - Ah, sim. Aí faz assim com a agulha.

P/2 - Por cima do cordonezinho. Então tinha que ir acompanhando o cordonet...

R/2 - Ponto por ponto. Aqui também. Aqui, pra fazer o richelieu, ela passa por exemplo uma costura daqui até aqui, aí ela vai fazendo assim, em volta, por cima. Aí fica esse caseadinho em cima do cordãozinho. Dentro desses cordõezinhos aqui tem um cordonet.

P/2 - Gente, isso aqui não tem valor.

R/2 - Ela fazia então azul, rosa, branco, todinho...

P/1 – Quanto vale uma toalha dessa? Tem preço isso? Não tem preço, né?

R - Tem as bordadeiras aí.

P/1 - E quem mais fazia esse tipo de trabalho?

R – Ninguém mais, imagina! Imagina!

R – Agora, força do bordado foi mesmo, foi 70 até uns 83, mais ou menos. A toalha branca, quando saía da máquina era marrom. Aí, você punha de molho na água. Deixava de molho...

R – Suja, porque é claro.

P/1 - É uma obra de arte.

R/2 - E isso aqui, olha, não é linho, é um cretone que chamava cretone linhol.

P/2 – E o que é esse tecido?

R/2 - É o cretone. É 100% algodão.

P/2 - É o que não tem mais, que você não encontra em lugar nenhum? De jeito nenhum, de forma alguma

R - Esse é pergal, cretone percal.

P/2 – Tergal?

R – Percal.

P/2 – Tergal.

R/2 - Naquela época nem ouvia falar de tergal.

P/2 - Tergal nem tinha, nada disso.

R – Esse tergal é uma porcaria, viu?

P/2 – É, então, imagina.

R/2 - Hoje ainda existe. As bordadeiras que faziam isso estão vivas, só que ninguém faz mais.

P/1 - Quando tem público?

R/2 - Ah, não rende, porque pra quem vai pagar, pagar um mês e meio de trabalho pra fazer uma colcha dessa...

P/2 - Não tem como pôr um preço, né? Não é difícil pôr um preço?

P/1 - É, não tem preço.

P/2 - É arte pura.

R/2 - Não acha quem corte hoje. Porque, vamos supor que tenha um interessado e a pessoa...

R – Ah, sabe mais o que eu aprontava? Eu não tinha os desenhos, eu não tinha. Eu estava comprando máquina para pôr uma fábrica de bordados. Eu falava assim: "Eu ainda vou montar um negócio desse de bordados." Então elas não me davam os riscos, eu tinha que inventar, né?

P/2 - Os desenhos?

R – É. A Dioguina me dava a mala fechada e levava no ônibus pra mim a mala.

P/1 - Para a senhora não ver?

R – Pra mim não ver, pra não mostrar pra ninguém aqui. A mala fechada. Pra não tirar o risco. Aí o que eu fazia? De noite eu pegava carbono, pegava papel, abria, tirava os desenhos, aqueles que eu gostava, depois eu vinha e trazia e preparava. Depois teve a minha filha que logo aprendeu a pintar e fazer desenho, a Odila fazia desenho já.

R/2 - Elas tiravam das toalhas da Ilha da Madeira

R - Tirava da toalha da Ilha da Madeira, eu vendia também bastante Ilha da Madeira.

P/2 – Então, o que é essa história da Ilha da Madeira?

R – Você não conhece Ilha da Madeira?

R/2 - Ilha da Madeira é uma Ilha de Portugal.

R - Na gaveta será que tem alguma?

P/2 - E tirava os desenhos das toalhas... E aonde a senhora conseguia comprar aquelas toalhas da Ilha da Madeira?

R – Eu tinha um português que ele trazia pra mim revender, e quando eu pegava as toalhas eu tirava os desenhos.

P/2 – Isso já aqui em Ibitinga?

R – Aqui. Essa mesma aqui é tirada da China. Essa aqui é chinesa, aquelas toalhas chinesas. Aqui já tá bem...

P/1 – Ela parece mesmo.

P/1 - Parece, o desenho, o tipo da flor, né?

R – Essa é tirada da toalha chinesa. Neuda, não tá aí, tá bem difícil de conseguir. Ah, não tá aí, ela tá muito lá em cima, não tem jeito de pegar.

P/1 – Deixa, não precisa.

R – E assim eu conseguia. A gente tem que fazer uma ginástica, viu? E a minha filha mais nova, a caçula, ela aprendeu a pintar, esses quadros é dela. Eu fui uma vez homenageada, olha lá um quadro de homenagem. Foi muito bonito, viu, aquela homenagem.

P/1 – A senhora trabalhou até quando assim, direto com os bordados?

R – Eu trabalhei... ai, eu devo ter quantos anos de aposentada?

P/1 – Mais ou menos.

R – Uns 15 anos de aposentada?

P/1 – Até 84?

R – Mais ou menos. 86, mais ou menos.

P/1 – E aí tem duas filhas da senhora que continuaram?

R – É, porque quando eu comecei a construir essa casa eu não trabalhava mais. É mais ou menos até 86. Aí ficou só a Teresa trabalhando.

P/1 – Só a Teresa? Que ela sempre trabalhou com isso?

R – Não, ela casou-se, foi pra São Paulo, o marido dela é contador, trabalhou em São Paulo... depois, aí quando eu ia parar ela veio pra cá. Aí ela veio pra cá pra tomar posse do meu lugar. Perdeu a viagem.

P/2 – Por que?

R – Se estivesse em São Paulo tinha... porque ele ganhava muito bem em São Paulo, né?

P/1 – E hoje assim... eu vejo muito cartazes das procissões que o pessoal enfeita com...

R – Ah, sim, esse negócio da procissão nós inventamos uma vez porque aí enfeitava as ruas aqui com folhas, com pó de serra, caco de vidro, aqueles pozinhos... aí um dia numa reunião, aí essa idéia eu sugeri essa idéia junto com outras. Eu falei com o Padre Otíneo: "E se nós fizermos uma exposição de bordados na rua?" Isso já tinha muito bordado, muita gente já tinha fábricas aqui, sabe? Já faziam o bordado... então ele falou: "Uma ótima idéia." Aí combinamos com a Neli Sampaio, com outras mais, com outras bordadeiras. E o que vendia a gente dava porcentagem pra igreja, né? Começamos assim. Aí nós fizemos. E era aquela competição, cada um queria pôr o que tinha de mais bonito na rua. Então a gente punha tablado, forrava com tábuas, com as coisas pra não... porque era coisas passadas, era linho, essas coisas, não podia pôr no chão, né? Começamos, foi um ano, dois, três anos assim. Depois aí nós falamos: "Bom..." Achamos que não estava dando resultado isso aí. Aí começamos a fazer e doar pra igreja. As lojas, as casas de... começou a fornecer pra gente o tecido, então a gente bordava e doava pra igreja. E continuamos fazendo os bordados e doando pra rua. Isso enfeita 14 quarteirão.

P/1 – E dá uma porcentagem pra igreja?

R – No começo.

P/1 – Agora não?

R – Não, no começo, foi uns três, quatro anos assim. Aí a gente depois... aí falamos: "Bom, e se..." Só que depois que começou a doar pra igreja não tinha mais aquelas competição, né?

P/1 – Edredon? Agora é mais edredon.

R – É, mais edredon.

P/1 – Que coisa maravilhosa!

R – Isso aqui é bordado à mão. Então, e dessas toalhas eu tirava os desenhos igualzinho, mesma cor.

R/2 - Ficou cheio porque o cheio da máquina fica mais chatinho, ele fica mais redondinho, mas imita...

P/1 – Nossa, que beleza! E hoje, o dia da senhora? Vamos acabar a nossa entrevista, indo para o final.

R – Hoje o meu dia a dia é sombra e água fresca e sapato largo no pé. (risos) Eu tô passeando na turminha aí lá da ...que a gente faz as coisas pra doação. Faz a excursão... A vidinha...

P/1 – A única ajuda?

R – É, Deus me ajudou muito, muito. Sempre me deu saúde. E meus filhos me ajudaram bastante mesmo. Foi a ajuda dele e dos meus filhos. Assim, ajuda de dinheiro, nesse sentido, empréstimos de gente que me ajudou, me emprestando, endossando pra mim, fazendo os endossos, como aqui tinha uma família, Zapata, ele chamava José Zapata, me ajudando, avalizando pra mim. Nunca precisou pagar um aval meu. Foram três pessoas que avalizaram pra mim aqui, e as três pessoas nunca precisou pagar um aval meu, eu só trabalhei com essa gente.

P/1 – Beleza! Desses anos do comércio que lição que a senhora tira, assim, que a senhora pode falar pra gente?

R – Eu acho que tudo que nós temos que fazer nessa vida, que nós temos que lutar, é lutar com fé e coragem. E sempre, por exemplo, se você pega numa coisa, acreditar que aquilo ali vai ser bom pra você, você vai sair naquilo, você vai vencer. É lutar e vencer. Nunca desanimar, nunca parar no meio do caminho. Você vai subir uma montanha, você tem que pensar que você vai chegar ao fim. Você nunca deve parar no meio e falar: "Não, eu não consigo." Porque você consegue. Você descansa, você respira e você vai. Vai em frente sempre que a gente consegue vencer. Nunca deve desanimar. É igual "Vou fazer isso, vou pegar isso aqui." Vai, vai em frente. Vai que um dia você consegue vencer. Nunca se deve deixar estressar e se atirar no meio da estrada, porque aí você fica.

P/2 – É verdade.

R - Aí você cansa. Se você parar de respirar, a tua respiração pára. Então não pare. Respira e vai em frente.

P/1 – Você quer perguntar mais alguma coisa?

P/2 - Só quero parabenizar sua força toda, né? Da vida inteira.

R – Que a minha luta foi árdua e custosa. A minha montanha foi difícil de escalar, mas eu cheguei ao topo e aqui estou feliz da vida, já nos meus quase 79 anos. Daqui quatro meses eu estou já.

P/1 – Fevereiro?

R – E vou chegar no ano 2000 fortona.

P/2 – Fortona ainda!

R – E com os netos maravilhosos que eu tenho.

P/1 – Quantos netos a senhora tem?

R – 13 netos e oito bisnetos.

P/1 – Beleza!

R – Perdi um. Essa foi a cruz.

P/2 – O nosso sofrimento, né? Que era um menino maravilhoso!

R – Mas está com Deus, Deus quis assim, já levou, paciência, né?

P/1 – Com certeza. Ele sabe o que faz, né?

R/2 - Sabe.

R – Com 23 anos, 24 anos, lindo! E é o que eu digo para vocês minhas filhas, vocês nunca devem desanimar. Hoje você vai fazer um serviço e fala: "Ai, eu não agüento, eu não posso." Pode sim. Por que não pode? Não tá aleijado? O aleijado consegue vencer.

R/2 - Vocês são as duas formadas em jornalismo?

P/1 – Não, eu sou historiadora e ela faz sociologia.

P/2 - Eu faço Ciências Sociais. Eu ainda não me formei, eu estou terminando.

R – E vai conseguir.

P/1 – Com certeza. Última pergunta pra senhora. O que a senhora achou de ter passado esse tempo aqui com a gente contando a sua experiência de vida, a sua história?

R – Nossa, achei maravilhoso, meu Deus! Eu gostei tanto, isso aqui foi tão bom pra minha cabeça! Poder desabafar um pouco, contar assim um pouco da trajetória da vida da gente, né? O meu filho mais velho é meio poeta também, viu? Ele gosta de fazer poesia. Ele é poeta, tem bastante obras dele.

P/1 – Ai, que legal!

R – Mas eu penso assim... como é seu nome?

P/1 – Cláudia.

R – Cláudia, eu fico pensando da minha vida, eu saí do nada, mas do nada mesmo, da pobreza. Mas só que a gente está dentro daquilo a gente não sente, vai indo.

P/1 – Não tem nem noção, né?

R – Não tem nem noção do que é aquilo ali. E assim, da gente sonhar, por exemplo, aquele sonho intransponível. Eu nunca pensei assim, uma coisa...

P/2 – Que estava acontecendo.

R – Que estava acontecendo.

R/2 - Só que eu acho assim, eu acho que existem pobres e pobres e ricos e ricos. Cada um se classifica de um jeito, né? Porque por exemplo, hoje, o pobre de favela, que é aquele pobre de espírito, que já às vezes vem de gerações... mas não, a senhora tem uma história, a senhora tinha uma família organizada, pai e mãe. Foram assim, pobres de dinheiro, mas aqui eu acho que todos conseguiram crescer, todos conseguiram vencer, então não era esse pobre de favela, esse pobre de espírito que cai na vida. Não, é diferente. Como tem ricos e ricos, tem aquele que é rico e tem aquele que tem dinheiro que...

P/1 – Que enriqueceu.

R – Ele chegava e falava assim: "Dona Maria, se eu comprar uma máquina, o que a senhora acha? A senhora acha que eu vendo os meus bordados?" E assim que foi crescendo, assim que foi crescendo. Eu falei: "Claro, compra." E se eu não vender, a senhora compra?" Eu falei: "Tudo bem, você compra, faz um pedaço e se não vender eu compro, eu fico com eles." Assim eu fazia. Fiz com quantidade enorme de gente daqui.

R/2 - O meu pai também tinha uma cultura boa. Ele não tinha diploma, mas ele tinha uma cultura muito boa, ela era maçom, então ele tinha um... pra passar pra gente e pra ela também.

R – Pra mim também. Eu não sabia nada, tudo o que eu aprendi com ele também. Esta menina que está aqui a mãe arrematava, a irmã dela bordava, ela bordava. Muito tempo ela bordou pra mim, muitos anos.

R/2 - Quem é, mãe?

R – A Fátima. Depois ela resolveu comprar uma máquina e fazer e foi pra frente e acho que está muito bem de vida, viu? E acho que está.

P/1 – Beleza, né? Muito bem.

R – O que me sobrou, graças a Deus a minha vida vai muito bem. Estou aposentada, não estou rica, tenho uma casinha que não pago aluguel e mais uma casinha de aluguel só. E com isso está bom demais, minha filha. Tenho o carro, ainda dirijo com essa idade.

P/1 – A senhora dirige?

R – Dirijo.

P/1 – Beleza! Ah, qual o nome do motorista que levava a senhora para o Paraná?

R – Antônio Carlos Costa.

P/1 – Ele trabalhou 14 anos com a senhora?

R – 14 anos.

P/1 – Beleza, né?

R – Começou com 19 anos.

R/2 - É, começou quando ele tirou carta.

R – Quando ele tirou carta.

P/1 – Que beleza! Queria agradecer a senhora de ter passado a tarde aqui com a gente, de ter dado a entrevista para o SESC e para o Museu.

P/2 - De ter nos ensinado um monte de coisas.

P/1 – Obrigada mesmo.

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